Uma tarde inspirada em Montessori

Maria Montessori observou que cada criança revela vontade de explorar, de descobrir, e de aprender de um modo natural. Ela defendia que a forma mais natural de aprender e também a mais adaptada às capacidades das crianças é a impregnação sensorial, que envolve os cinco sentidos e a manipulação.

Antes de poder aceder à abstração, é essencial que a criança comece por observar o mundo real. E isso implica, entre outras coisas, ter a oportunidade de passear em diferentes contextos: no jardim, no parque, na floresta, na praia, na montanha,… Esses passeios despertam na criança a compreensão e o respeito pela Natureza que a envolve.

A observação e a compreensão da Natureza têm como ponto de partida a descoberta dos seus ciclos de vida. A criança observa que o mundo vivo ao seu redor nasce, cresce e morre. Compreende que as sementes que coloca na terra e que vão dar origem a uma planta, são provenientes de uma outra planta, que também nasceu, cresceu e morreu. A observação da Natureza é um pretexto perfeito para despertar na criança o cuidado dos outros seres vivos, e o sentido de responsabilidade: regar as plantas, retirar as suas folhas secas, alimentar os animais, escová-los,… são atividades do dia-a-dia que estão sempre presentes num ambiente Montessori.

Então ontem, dedicamos parte da nossa tarde a atividades com o tema das sementes e a sua germinação. Inspirados pelo crescimento dos nossos lindos girassóis, partimos à descoberta do ciclo de vida de uma semente!

Como é habitual, o ambiente foi preparado durante a sesta do nosso pequenote. Preparar o ambiente é um dos pilares da pedagogia Montessori, e deve sempre ser feito com muito cuidado e atenção. As atividades devem realmente fazer sentido para a criança, e irem ao encontro dos seus interesses do momento, da sua curiosidade, e também das suas competências desenvolvimentais. Quando temos crianças de diferentes idades, o desafio é ainda maior!

Vamos então ver as atividades uma por uma?

1- Observar os diferentes momentos do ciclo de vida de uma semente de feijão verde. Recorrendo a um material concreto e muito semelhante ao real, as miniaturas do ciclo de vida do feijão verde, da marca Safari Ltd, observamos atentamente os diferentes momentos que ocorrem desde o início da germinação de uma semente até à planta adulta.

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As nossas miniaturas são daqui | https://www.mumuchu.com/ciclo-de-vida-de-una-planta-de-judia-verde-safari.html

2- Observar atentamente (à lupa!) as sementes de girassóis! As crianças pequenas manifestam essa necessidade de observar tudo ao pormenor, revelam um fascínio pelos detalhes, e se lhes dermos a oportunidade de o fazerem, dedicam-se mesmo muito a estes momentos de observação atenta. Aqui em casa, a lupa tornou-se uma ferramenta de trabalho indispensável!

65162644_2309142022673221_4165388514931769344_n3- Cuidar dos nossos pequenos girassóis. Na minha formação em pedagogia Montessori, em França, ouvi diversas vezes que as sementes de girassol são as melhores para se observar o ciclo de vida de uma planta. E é verdade! Elas germinam e crescem muito rapidamente (em poucos dias começaram a despontar da terra!). Nutrir na criança o cuidado das suas plantas é algo de essencial, por isso, regar cuidadosamente os girassóis é uma das tarefas diárias do nosso pequenote, e ele adora! Aprendeu, entre outras coisas, a dosear a quantidade de água que lhes dá!

65531003_422983011882497_1724730042824523776_n4- Os tabuleiros de vida prática continuam a marcar uma presença crucial nas nossas estantes. Transferir sementes de girassol de uma taça para a outra com uma colher é uma atividade que ajuda a aperfeiçoar o trabalho da mão, mas também desenvolve imenso a concentração. É claramente uma atividade que ajuda o nosso pequenote a serenar quando está mais agitado, e é incrível ver como faz e repete numerosas vezes esses tabuleiros incansavelmente! Uma regra importante em Montessori é nunca interrompermos o trabalho da criança, ou seja, é essencial respeitarmos essa necessidade de repetição. É a criança que sabe quando já chega. E muitas vezes, este é um grande desafio para nós, adultos!

5- Os livros! Instrumentos de aprendizagem imprescindíveis! A paixão pelos livros é algo de muito presente aqui em casa, e não temos nenhum truque infalível para que isto aconteça, apenas o exemplo! As nossas crianças contactam com livros em casa porque temos muitos! Veem-nos desde sempre ler, temos momentos de leitura em conjunto, mas também momentos em que cada um se instala num canto da casa com o seu livro. Nunca subestimem o poder da exemplaridade na aprendizagem das crianças!

Os nossos livros são estes | http://www.fabula.pt/livros/comeca-numa-semente

e http://www.gallimard.fr/Catalogue/GALLIMARD-JEUNESSE/Albums-Gallimard-Jeunesse/Dix-petites-graines

6- Finalmente, uma das atividades prediletas do nosso menino crescido: desenhar o que observa! Quando era mais pequeno, o Alexis não gostava de desenhar. Muitas vezes vimo-lo perdido a olhar para a folha branca e os lápis de cor, sem saber o que desenhar. A educação Montessori trouxe-lhe algo de maravilhoso: o gosto por fazer registos das suas observações. Acontece quando faz experiências científicas, quando parte em busca dos nomes científicos das flores do jardim, quando descobre insetos, quando observa os pássaros, ou simplesmente quando contempla a Natureza! Confesso que sou absolutamente apaixonada pelo ar atento dele quando desenha!!

Momentos de descoberta como estes podem andar à volta de qualquer tema! Precisamos apenas de observar atentamente as nossas crianças, e assim compreendemos o que faz sentido para elas, em determinado momento!

Boas inspirações montessorianas!

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A MESA DE OBSERVAÇÃO DA NATUREZA

Maria Montessori realçou a importância do contacto da criança com a Natureza para o seu desenvolvimento harmonioso. Compreender a Natureza ajuda a criança a respeitá-la e a cuidar dela. 

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Na descoberta que a criança faz do mundo natural, Maria Montessori descreveu cinco etapas progressivas. A primeira etapa inicia-se por volta dos 2 anos de idade, quando a criança começa a sentar-se e a observar os pequenos insetos, a arrancar as pétalas das flores, e a interessar-se pelas reações dos animais quando lhes toca. 

Em Montessori, atribuímos uma grande importância aos ciclos da Natureza. A criança precisa de compreender que as plantas crescem, que precisam de água, de nutrientes, de luz, e que passam por diferentes etapas ao longo da sua vida. Para isso é essencial oferecer-lhe meios para que ela possa observar o ciclo da Natureza ao longo das diferentes estações do ano.

Por isso, por volta dos dois anos de idade, começa a fazer todo o sentido criar no ambiente da criança, seja em casa ou na escola (creche), uma mesa de observação da Natureza! 

A mesa de observação da Natureza é um dos elementos mais maravilhosos no ambiente preparado Montessori. Consiste simplesmente numa pequena mesa onde colocamos elementos recolhidos na Natureza. Esses objetos devem ser substituídos à medida que o tempo passa, e em função das mudanças que ocorrem na Natureza, ou seja, à medida que as estações do ano vão passando. A criança compreende assim o ciclo da vida, e tem a oportunidade de guardar todos os pequenos objetos que recolhe nos seus passeios no jardim, na floresta, na praia,… desde flores, conchas, avelãs, castanhas, paus, pinhas, folhas secas, até mesmo pequenos insetos,… como se fossem pequenos tesouros!

Ao lado da mesa, podemos colocar uma cadeira, para a criança se instalar confortavelmente enquanto observa os seus tesouros, e uma lupa para poder observar todos os pormenores!

O resultado final fica lindo, e permite-nos dar vida às estações do ano!

Aqui em casa, estamos já muito atarefados a preparar a nossa mesa de observação do Verão! E vocês? Já fizeram a vossa?

Boa semana!

A Magia do Natal e Montessori

O tempo passa a voar e, quase sem darmos por isso, já estamos quase, quase no Natal! Um dos temas que surge de modo recorrente nesta altura do ano é o da relação entre o Natal e Montessori. O que é que faz sentido em Montessori, no que diz respeito ao Natal? Como incentivar as nossas crianças, mas também os nossos familiares, a terem uma atitude consciente nessa época festiva, que hoje em dia está muito influenciada pelo consumismo. De que forma resfriar o ímpeto consumista das nossas crianças, que são bombardeadas com catálogos dos brinquedos de Natal dos supermercados, publicidade a brinquedos na televisão, e incentivos de quase todo o lado para começarem a escrever a carta para o Pai Natal, que muitas vezes não é mais do que uma lista de presentes! 

A verdade é que, em Montessori gostamos de celebrações! Celebramos a vida, celebramos o crescimento, o caminho percorrido e explicamos às crianças o significado das datas especiais, enfatizando a importância de dar relevância aos momentos vividos, ao crescimento e às mudanças que ocorrem a cada passo do nosso caminho. É por isso que celebramos com tanto entusiasmo os aniversários, prestando atenção essencialmente a pequenas coisas, que nos passam ao lado se não prestarmos atenção a elas todos os dias. Vemos as crianças ainda mais felizes nesse dia, em que cada uma delas sente, mais uma vez, o quanto é especial e única! 

15000189_1608667755826041_5790836294945412400_oAcredito por isso que, adotando essa filosofia de vida, que se foca no aspecto afectivo e relacional das coisas, conseguimos transmitir às nossas crianças aquilo que realmente é importante: o Natal, como qualquer outra celebração, é uma celebração de amor, de partilha, de proximidade, que deveria estar presente nos nossos dias, todos os dias, mas que nessa altura do ano é ainda mais enfatizada. Não significa que as crianças não podem receber presentes de Natal, mas acredito que resfriamos o impulso consumista delas se as conseguirmos focalizar noutras dimensões. 

Outra grande questão muito ligada ao Natal tem a ver com o imaginário: devemos alimentar nas nossas crianças a crença na existência do Pai Natal? É uma questão sensível, e que não se esgota no Natal, mas também se aplica à Fada dos Dentes, ao Coelhinho da Páscoa,… Devemos dizer a verdade às crianças acerca do Pai Natal? Será realmente uma mentira? Estaremos a perder a magia do Natal dizendo a verdade às nossas crianças acerca do homem das barbas brancas?

Maria Montessori tinha uma posição muito clara em relação à fantasia nas crianças. Num dos seus livros, “A pedagogia científica” escreve o seguinte: “Nos países anglo-saxónicos, o Natal é um velhinho coberto de neve, que tem dentro de um cesto enorme brinquedos para as crianças, entrando durante a noite na sua casa. Como pode o fruto da nossa imaginação desenvolver a imaginação das crianças? Apenas nós imaginamos, eles não, eles acreditam, não imaginam (…). É mesmo a credulidade que queremos desenvolver nas nossas crianças? (…) Somos nós que nos divertimos com a festa de Natal e com a credulidade da criança.”

Lendo esse excerto parece bastante clara a percepção de Maria Montessori de que devemos evitar recorrer ao tema do Natal para nutrir a fantasia nas crianças pequenas. A verdade é que se uma criança acredita no Pai Natal, significa que, a determinado momento, terá de saber a verdade. E se lhe dissermos a verdade a determinado momento, significa que antes, houve realmente uma mentira… É uma mentira aceitável? Existem diferentes tipos de mentiras? E essa mentira é “por um bom motivo”, e devemos manter este mito porque é a magia de Natal… Projetando para mais tarde, quando fazemos a escolha de contar às nossas crianças que o Pai Natal existe, quantos de nós refletiu realmente sobre a forma como irá reagir no momento em que a criança nos vai fazer “a pergunta”? Ou como irá reagir a criança no dia em que os amigos lhe irão dizer que o Pai Natal não existe? Será que, enquanto pais, nos vamos sentir confortáveis em relação a isso? Será que vamos estar prontos para isso, seja qual for a idade da nossa criança e a forma como ela vai descobrir “a verdade”? E a criança, no meio de tudo isso? Como irá reagir? Vai ficar decepcionada? Vai chorar? Vai ficar zangada? Se sim, terá realmente valido a pena ter criado esta fantasia à volta da sua vivência do Natal?

Por outro lado, é também comum, cedermos à tentação de “negociar” o bom comportamento das nossas crianças com afirmações do género: “Se não te portares bem, o Pai Natal não te dá prendas!”, ou “Olha que o Pai Natal vê e ouve tudo!”, ou ainda “Tens a certeza que este ano mereces as prendas do Pai Natal?”.

O que transmitimos às nossas crianças é que o Pai Natal é como se fosse um juíz, que sabe melhor do que os outros (leia-se, pais) aquilo que a criança merece… A expressão “merecer” por si só levanta também imensas reticências, numa pedagogia em que se defende a importância da auto-educação da criança, e a ausência de recompensas, e de castigos… Se nos colocarmos no papel da criança, chegamos facilmente à conclusão que nada disso é muito coerente nem tranquilizador. 

Mas então, o que desenvolve na criança o mito do Pai Natal? Acima de tudo, transmite à criança magia e fantasia, alimenta o seu imaginário numa fase do seu desenvolvimento em que a relação com a realidade não está ainda totalmente formada. De facto, antes de cerca dos 6 anos de idade, a criança não distingue claramente a realidade do imaginário. 

A grande questão reside então no nosso papel de educadores: faz parte do nosso papel alimentar a imaginação da criança fazendo com que acredite em qualquer coisa? As nossas crianças não são capazes já, por si mesmas, passada essa idade, de inventar as suas próprias histórias? Se escolhemos ter uma relação de confiança com a nossa criança, não fará mais sentido não mentir?

Podemos então reflectir acerca dos diversos inconvenientes relacionados com a crença no Pai Natal:

– A confiança da criança nos seus pais: É uma história contada pelo pai e pela mãe, por isso naturalmente a criança acredita nela. Não devemos nunca perder de vista que a criança confia de uma forma incondicional nos seus pais;

– A escolha dos presentes que damos: Acabamos, algumas vezes, por atribuir a “culpa” ao Pai Natal se a criança não recebe todos os presentes que desejou, quando na realidade essa escolha de não dar os presentes todos deveria ser assumida pelos pais, como uma escolha lógica de quem não pretende transmitir o lado material do Natal aos seus filhos;

– A descoberta da verdade: Quando a criança finalmente descobre que o Pai Natal não existe, poderá sentir-se enganada pelos pais, e nalguns casos, poderá ficar muito decepcionada com os pais por a terem enganado durante anos.

Tenho três filhos, com os 2 mais velhos fiz o mesmo que me fizeram a mim 🙂 Incuti neles a crença no Pai Natal, acreditando que isso tornaria o Natal mais mágico e especial. Tenho recordações fantásticas do Natal quando era criança, mas após uma profunda reflexão apercebo-me que as minhas melhores recordações pouco ou nada têm a ver com o Pai Natal. Lembro-me muito bem de decorar a casa com a minha irmã, lembro-me de ir apanhar o musgo à floresta com o meu pai que dedicava uma atenção muito especial ao presépio, lembro-me das noites de Natal, do calor humano, das brincadeiras com os meus primos,… Lembro-me muito pouco dos presentes, mas lembro-me do dia em que percebi que o Pai Natal não existia, e lembro-me de ter ficado muito triste.

Decidimos por isso que não vamos contar a história do Pai Natal ao nosso filho mais novo. Vai compreender que somos nós que lhe damos um presente de Natal, e naturalmente vamos ter de desconstruir a crença dos irmãos mais velhos no Pai Natal…

Em todo o caso, a escolha de incutir ou não a crença no Pai Natal nas crianças deve ser uma escolha reflectida e consensual para os pais, baseada acima de tudo no desenvolvimento da confiança na criança, da confiança em si mesma, mas também na confiança em nós, porque sabemos que esse é o motor da sua construção pessoal. Vamos contar-lhe a história do Pai Natal, mas insistindo muito bem no facto de ser uma história. Pretendemos acima de tudo enfatizar o significado histórico e bíblico da história do Natal, porque é antes de mais por essa razão que celebramos o Natal… Essa escolha não é, de forma nenhuma, um julgamento sobre escolhas diferentes da nossa, é apenas uma partilha. Nem faria sentido que fosse de outra forma! Dois dos meus filhos ainda acreditam no Pai Natal… e na Fada dos Dentes!

Voltando então ao início desta reflexão: a magia do Natal existe, mesmo sem Pai Natal! Aliás, a verdadeira magia do Natal é o que queremos transmitir às nossas crianças: a partilha e o amor.

 

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Montessori e a Resolução de Conflitos | A Mesa da Paz

Em conversa com uma amiga, mamã Montessori, surgiu o desafio de escrever sobre a mesa da Paz, um elemento presente em algumas (não todas as) escolas Montessori. É um tema que faz imenso sentido hoje em dia, em que assistimos diariamente, e um pouco por todo o mundo, a notícias relacionadas com violência, e atentados constantes aos direitos mais fundamentais de cada ser humano, seja adulto ou criança.

Maria Montessori foi a primeira pedagoga a debruçar-se sobre o papel da educação na Paz, e a colocar em prática esse aspecto tão fundamental da vida em sociedade. No seu livro A Educação e a Paz, encontramos diversas conferências de Maria Montessori, realizadas entre 1932 e 1937, em que reflecte sobre essa necessidade de construir a Paz no Mundo, começando pelas crianças.

Maria Montessori acreditava genuinamente que a educação traçaria o caminho para a Paz. Afirmava que, educando as crianças de hoje no respeito, na cooperação, na empatia, na tolerância, e na harmonia, estaríamos a construir adultos de Paz, e que poderíamos erradicar assim a guerra do nosso mundo. Continuemos a acreditar que sim. O caminho para a Paz é a educação no total respeito de cada criança!

Sou mãe de três crianças, e por muito que acredite no amor incondicional que sentem umas pelas outras, a verdade é que, de tempos a tempos, surgem conflitos entre elas. Acredito que é uma realidade transversal a todas as famílias em que coexistam irmãos. Nas escolas, assistimos também a situações de conflitos, de desentendimentos entre crianças. Muitas vezes, o conflito é de tal ordem que gera uma dificuldade muito grande em as crianças resolverem o problema de um modo sereno.

O papel do adulto na resolução desses conflitos é crucial? Ou não será tanto assim? Devemos enquanto educadores que somos, intervir a todo o momento? Interromper a discussão, separar as crianças, e resolver assim o conflito? O conflito ficará assim realmente resolvido? Devemos decidir quem está certo e quem está errado? Castigar a criança que errou, ou as duas? Devemos “apenas” ralhar com elas? Tomar o partido de uma das crianças em detrimento da outra?

Numa pedagogia em que valorizamos de um modo inequívoco o respeito por cada criança e a sua autonomia em todas as suas aquisições, seria impensável o adulto assumir um papel tão peremptório. O princípio nesta pedagogia é simples: não permitir que a família ou a escola funcione de acordo com o modelo da superioridade versus inferioridade dos elementos que a constituem.

Maria Montessori  descreve a sua pedagogia como uma verdadeira “ajuda para a vida” , em que o adulto deve, não apenas repensar o seu papel autoritário, mas também ter sempre como referência as necessidades da criança, e deixar-se guiar por essas necessidades.

Por isso, em Montessori, a mesa da Paz (também apelidada de mesa das negociações) assume um papel importante nas situações de conflitos e constitui um território de apaziguamento, uma vez que traduz todo um procedimento que ajuda as crianças a resolver os seus desentendimentos, de um modo autónomo e no respeito da individualidade de cada uma.

Trata-se simplesmente de uma mesa de crianças, com duas cadeiras. Em cima da mesa, colocamos um pequeno sino, e uma flor ou qualquer outro elemento decorativo que simbolize a Paz (pode ser um ramo de oliveira, ou uma pomba). Pode também ser apenas um tapete colocado no chão, num local resguardado e tranquilo do ambiente da criança. O importante é que as crianças associem aquele espaço a um local onde vão poder ouvir e ser ouvidas a propósito de uma situação desagradável.

O que observamos muitas vezes é que, uma vez esse ritual integrado na rotina das crianças, elas próprias se dirigem para a mesa da Paz, em total autonomia, quando surge essa necessidade. Mas nem sempre é assim. Pode ser necessária a intervenção de um adulto ou de uma criança mais velha, que tenha assistido ao surgimento do conflito, no sentido de encaminhar as crianças em causa para a mesa da Paz para então resolverem o seu problema.

No seu livro, “Eveiller, épanouir, encourager son enfant” (publicado em francês pela editora Nathan), Tim Seldin, que preside à The Montessori Fondation, descreve e ilustra de um modo maravilhoso todo o procedimento da resolução de um problema entre crianças, recorrendo à mesa da Paz.

Uma vez as crianças sentadas à volta da mesa da Paz, elas seguem um procedimento explicado anteriormente pelo adulto: uma das crianças (habitualmente a que se sente mais magoada ou zangada) coloca uma mão em cima da mesa, e a outra pousada no seu peito junto ao seu coração. Esse gesto é imensamente simbólico, uma vez que indica que, do fundo do seu coração, a criança vai ser absolutamente honesta. Olhando para a outra criança, diz o seu nome, e explica o que sente em relação ao sucedido e de que forma gostaria que o conflito fosse resolvido. Depois disso, é a vez da outra criança proceder exactamente da mesma forma. O diálogo entre as duas crianças continua, sem nunca se interromperem uma à outra, até que encontrem uma resolução para o problema. Nem sempre as crianças conseguem por si mesmas chegar a esse entendimento, podendo ser necessária a intervenção de um mediador. Esse mediador pode ser um adulto, ou uma criança mais velha, que vai ajudar na resolução do conflito.

A importância da mesa da Paz é acima de tudo, que a criança tome consciência do impacto das suas atitudes e dos seus gestos nos outros, mas também que, seja qual for a sua idade, o seu tamanho, ou a sua posição na fratria (em casa) ou na sala de aula (na escola), a sua opinião será sempre ouvida, e tida em consideração, e nunca será tratada injustamente. A criança aprende também que os conflitos devem ser sempre resolvidos na base da honestidade e da boa vontade, porque é esse o caminho que nos permite manter a harmonia e a cooperação entre todos, seja em casa ou na escola.

Encontrada a resolução do problema, as crianças agarram juntas no pequeno sino pousado em cima da mesa, e fazem-no tocar, o que representa de uma forma simbólica o fim do conflito entre elas.

Inspirados? 🙂 Vamos todos construir uma mesa da Paz para as nossas crianças?

 

Créditos das imagens | “Eveiller, épanouir, encourager son enfant”, Tim Seldin. Editora Nathan

Ligação para o livro de Tim Seldin, em francês | https://www.cultura.com/eveiller-epanouir-encourager-son-enfant-9782092786505.html

E em inglês | https://www.amazon.com/gp/product/075662505X/ref=as_at?imprToken=mw2I7A.qSA7FJ-RPvJAKYA&slotNum=28&ie=UTF8&camp=1789&creative=9325&creativeASIN=075662505X&linkCode=w61&tag=howwemontessori-20&linkId=TJLSVOXKVGTKBVUE

 

Montessori na Cozinha | O Material Indispensável

Maria Montessori criou todo o seu material pedagógico como uma ajuda ao desenvolvimento da criança. Trata-se de material muito bem concebido , e que funciona como um “mediador” entre a criança e a descoberta das aprendizagens de um modo concreto e sensorial.

As atividades de cozinha são atividades denominadas de “vida prática” em Pedagogia Montessori, uma vez que elas encerram em si um objetivo que é útil.

Quando envolvemos as crianças nas atividades de culinária, os utensílios fazem toda a diferença: devem ser fáceis de segurar e de manusear pelas crianças mais pequenas, por isso devemos verificar muito bem o seu peso e o seu tamanho antes de os colocarmos à sua disposição.

Esses utensílios vão traduzir-se numa ajuda inequívoca para a aprendizagem dos gestos corretos a realizar, mas também para a coordenação óculo-manual, o controlo e a precisão dos gestos.

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Podemos então dividir os utensílios de cozinha em diferentes categorias:

Utensílios para misturar

  • Uma colher de pau;
  • Um pequeno batedor;
  • Uma espátula;
  • Recipientes de diferentes tamanhos: tigelas, saladeiras,… (evitando sempre que possível o plástico!)

Utensílios para cortar

  • Uma pequena faca de manteiga com ponta arredondada;
  • Um cortador ondulado de legumes;
  • Uma pequena tábua de madeira;
  • Um cortador de maçãs, para cortar uma maçã em vários pedaços de uma vez só.

Um corta-ovo, permite cortar um ovo cozido em rodelas, mas é também muito útil para cortar cogumelos crus!

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Um descascador de legumes, é importante escolher um que seja prático e seguro, de preferência com o cabo curto.

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Tesouras com pontas arredondadas, para cortar por exemplo as ervas aromáticas.

Cortadores de formas de diferentes tamanhos e formatos: estrelas, animais, letras, formas geométricas, corações,… Não esquecer que permitir à criança a livre escolha é uma das características essenciais da Pedagogia Montessori.

Esses cortadores de formas não são exclusivamente utilizados na confecção de bolachas. Podem ser também utilizados para recortar pão de forma, fiambre, queijo, frutas, legumes,… 28575610_975891359230876_7584554717100446189_n

Utensílios para transferências

  • Pinças;
  • Funil;
  • Pequenas tigelas;
  • Pequenas jarras.

Utensílios para esmagar

  • Um almofariz e um pilão, para esmagar folhas, especiarias, sementes,…
  • Um quebra-nozes, idealmente com um sistema de enroscar/desenroscar.
  • Um esmagador de batatas, para confeccionar purés de legumes caseiras.

Utensílios para ralar

  • Um ralador com pega, preferencialmente; se tiver um recipiente integrado, ainda melhor.

Utensílios para espremer

  • Um espremedor de citrinos, preferencialmente em vidro, porque oferece uma maior estabilidade em comparação com o plástico.

Utensílios para lavar os legumes

  • Um escorredor de legumes.

Utensílios para cozer

  • Um pequeno tacho;
  • Uma pequena frigideira;
  • Diferentes tipos de formas: formas de tarte, formas de bolo,… Evitar as formas de silicone, porque se elimina o exercício de untar com manteiga, e é pena!
  • Folhas de papel de vegetal.

Outros utensílios

  • Um rolo de pasteleiro, é essencial que seja à medida das mãos da criança;
  • Uma pequena concha;
  • Um passador;
  • Uma escumadeira;
  • Um pincel de culinária;
  • Um descascador de maçãs;
  • Um separador de gema/clara do ovo;
  • Tabuleiros de diferentes tamanhos, para a criança poder transportar as suas receitas!
  • Uma varinha mágica;
  • Um escorredor;
  • Vários paus de madeira, para realizar espetadas de frutas variadas!
  • E não esquecer, o imprescindível avental. Idealmente deverá ser um avental que a criança consiga vestir sozinha. Em Montessori, o avental é muito mais do que um simples protector para a sujidade na roupa. É antes de mais, uma referência psicológica para a criança que lhe indica o começo de um ciclo de trabalho. Aqui em casa, basta dizermos “Vamos trabalhar?” e o nosso pequeno montessoriano corre para o sítio onde o seu avental está cuidadosamente guardado 🙂

Prontos para apetrecharem as vossas cozinhas com esses pequenos utensílios? 🙂

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Continuamos amanhã com outro aspeto essencial: a postura do adulto perante a criança na cozinha…

Montessori na Cozinha | A Arrumação do Espaço

Aqui em casa, vivemos grande parte do nosso tempo na cozinha 🙂

É delicioso partilhar a preparação das refeições com as pessoas que amamos, e envolver as crianças nesses momentos cria também neles uma relação mais saudável com a comida.

Mas como se encaixa Montessori nas nossas cozinhas? Na verdade, as cozinhas são concebidas à nossa altura, e para responder às nossas necessidades de adultos. Enquadrar Montessori em casa implica permitir que a criança participe nas tarefas da vida quotidiana, por isso, as pequenas mãos devem participar na preparação das refeições mas também (com peso e medida!) na arrumação e na limpeza da cozinha.

O objetivo? Permitir que a criança coordene e fortaleça os seus movimentos finos através de atividades da vida quotidiana, chamadas em Pedagogia Montessori, a Vida Prática. A criança é assim responsável pelos seus gestos, e pode cuidar também do seu ambiente.

Para começar, é essencial colocarmo-nos à altura da criança para termos uma real percepção de quais os ajustes necessários para ir ao encontro da sua necessidade de explorar, de ver, e de mexer com as mãos.

Hoje partilho convosco, algumas ideias acerca da ARRUMAÇÃO da cozinha. Vamos lá? 🙂

Um truque infalível é colocar à disposição e à altura da criança uma gaveta ou uma prateleira para arrumar tigelas, canecas, copos e pratos. Numa outra gaveta ou prateleira, colocar os utensílios de cozinha da criança, especialmente adaptados às suas pequenas mãos. Os ganhos em termos de autonomia são imensos!

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Para colocar a criança ao nível do nosso plano de trabalho, podemos recorrer a um pequeno escadote, ou à famosa torre de observação muito conhecida no universo Montessori atual. Contudo, o ideal (por ser mais Montessori, e também mais seguro) é criar um espaço de trabalho com uma mesa pequena, à altura da criança.

Devemos privilegiar frascos de vidro, para colocar os alimentos secos: arroz, massa, farinha, cereais,… para que a criança os possa identificar rapidamente. É muito interessante colar etiquetas nos frascos com fotografias desses alimentos, para que a criança possa colocar os alimentos correspondentes quando os frascos ficam vazios.

Uma regra a não esquecer: Colocar à disposição da criança alguns utensílios de limpeza: uma pequena pá, uma vassoura e uma esponja adaptada às suas pequenas mãos.

Vamos começar a “montessoriar” a cozinha? Podem começar já pela arrumação do espaço, amanhã partilho mais dicas sobre o material indispensável!

Para terminar, um pouco de inspiração… em imagens!

A Sensorialidade em Montessori

Um dos pilares da Pedagogia Montessori é o desenvolvimento sensorial. Enfatiza a estimulação dos cinco sentidos da criança, e isso, desde o nascimento. Através da manipulação de material pedagógico adaptado, a criança aprende progressivamente a reconhecer as cores, os volumes, as formas, os pesos, os cheiros, os sons,…

A verdade é que a criança descobre e compreende o mundo à sua volta através dos sentidos. Por isso, quanto mais afinados estiverem, melhor será a sua perceção do mundo em que vive.

Convicta disso, Maria Montessori elaborou material sensorial que permite à criança desenvolver e afinar os seus sentidos. Descreveu a criança pequena como um explorador sensorial, e essa expressão diz-nos muito acerca de uma das necessidades mais prementes da criança até aos seis anos de idade: a exploração do mundo através dos sentidos.

A apresentação à criança do material pedagógico sensorial obedece a uma progressão que foi criada por Maria Montessori, desde a torre cor-de-rosa, à escada castanha, os frascos dos cheiros e dos sons, as letras rugosas, ou ainda as maravilhosas caixas das cores!

Mas existem também outros materiais, que não sendo os desenvolvidos por Maria Montessori, nos permitem também oferecer às nossas crianças experiências sensoriais muito interessantes e estimulantes.

É o caso destes blocos sensoriais. É um material que permite à criança manipular com a sua mão, estimulando os seus sentidos: a visão, a audição e o tato. São seis blocos translúcidos de madeira que lhe permitem empilhar uns nos outros, aprender as formas e as cores, brincar com a luz, sobrepondo-os para descobrir a combinação das suas cores,  … numa experiência sensorial muito rica! Em cada manipulação, a criança constrói o seu pensamento.

Por aqui, começou a descoberta desses blocos sensoriais maravilhosos. Prevemos horas de brincadeira! 🙂